Durante o aniversário da dona de uma mansão, a morte chega como um presságio. De pés descalços e vestido branco, ela se materializa à beira de uma grande piscina, onde uma criança afunda, por um fragmento de tempo. Eis o mote do conto Dizem que os Cães Vêem Coisas, publicado em 1987 pelo escritor cearense Moreira Campos. A história instigou o realizador cearense Guto Parente a pensar uma transcriação do conto para o cinema por meio de seu curta homônimo, que estreia amanhã na Mostra Panorama, da 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes. “Li o conto e fiquei impressionado com sua potência. Senti-me levando um soco no estômago. Com Moreira Campos costuma ser assim. Quase tudo que li dele tem uma força absurda”, confessa Guto Parente.
A leitura de Dizem que os Cães Vêem Coisas marcou Guto especialmente por ter vivido aos dois anos de idade uma situação próxima ao acontecimento central do conto, quando a criança afunda na piscina. A experiência fez com que, durante a leitura, ele se sentisse dentro daquele universo de forma muito particular. “Fui com minha mãe para uma festa de dondocas amigas dela e enquanto elas conversavam numa roda, a alguns metros de distância, eu brincava sozinho com uma mangueira na borda da piscina. De repente, me vejo no fundo. Lembro do desespero de querer subir e não conseguir e da imagem da minha mãe vindo lá de cima, num mergulho heróico. Diferentemente da criança do conto, eu fui salvo”, recorda.
Para o diretor, a transcriação partiu do que considerava essencial no conto para a construção de um universo imagético dentro das possibilidades cinematográficas. O maior desafio foi “encontrar a potência equivalente no cinema daquilo que é próprio da literatura e só tem força na literatura, assim como utilizar o que é particular do cinema para potencializar o que na literatura não é imagem”, explica Guto. O realizador explica que é preciso estar atento às especificidades de cada linguagem. “Não é o Dizem que os Cães Vêem Coisas filmado, é o Dizem que os Cães Vêem Coisas um filme. É o resultado de um encontro”.
O diálogo com Moreira Campos por meio do audiovisual vem desde a parceria com o realizador Fred Benevides, que dirigiu o curta As Corujas (2009), também transcriação de outro conto do mesmo autor. Guto foi assistente de direção e montador do filme do Fred. “Foi inclusive ele quem me apresentou à literatura do Moreira Campos. Nós conversávamos muito sobre fazer filmes a partir dos contos dele, que em sua maioria são muito imagéticos”. Em agosto de 2009, Guto escreveu o roteiro de Dizem que os Cães Vêem Coisas, algum tempo depois da finalização de As Corujas, e chamou Fred para colaborar como assistente de direção.
A intenção é concretizar um box de DVD com vários curtas que assumem a mesma proposta. “Sonhamos com a publicação de uma nova edição da obra completa do Moreira Campos junto com a caixa. O próximo filme vai ser a partir do conto Visita ao Filho e será realizado pelo Fred”, adianta Guto. Dentro da produtora Alumbramento, o cineasta já esteve presente em edições anteriores da Mostra de Cinema de Tiradentes, sendo inclusive premiado com o longa Estrada para Ythaca, que co-dirigiu com os irmãos Pretti e Pedro Diógenes. “Tiradentes é um dos festivais de cinema mais interessantes do Brasil”.
* A repórter viajou a convite do evento.
Debate sobre crítica
A 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes apresenta hoje a primeira parte do seminário Panorama Crítico da Crítica, onde participam os críticos Fábio Andrade (RJ), Jean-Claude Bernardet (SP), Luiz Carlos Merten (SP) e o também cineasta Eduardo Escorel (RJ). A mesa propõe uma reflexão sobre a atuação da crítica cinematográfica, a configuração de seu cenário e seu olhar para o cinema brasileiro da primeira década do século XXI.
Os documentários Entorno da Beleza, de Dácia Ibiapina (DF); e HU, de Pedro Urano e Joana Traub Cseko (RJ), são os destaques da Mostra Aurora, dedicada aos primeiros e segundos longas de novos realizadores, que concorrem ao prêmio de melhor filme concedido pelo Júri da Crítica e pelo Júri Jovem. Entorno da Beleza parte da temporada de concursos de miss em Brasília e cidades satélites no ano de 2010, quando contradições afloram em ensaios, passarelas e bastidores. Já HU explora um edifício partido ao meio: de um lado, o hospital; do outro, a ruína. No horizonte, a Baía de Guanabara, o Rio de Janeiro, a saúde e a educação públicas.
SERVIÇO
O que: 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Quando: até 28 de janeiro (Dizem que os Cães Vêem Coisas será exibido amanhã, às 16h30, na Mostra Panorama)
Onde: Cine-Praça, Cine-Tenda e Centro Cultural Yves Alves, em Tiradentes
Info.: www.mostratiradentes.com.br
P.S.: Matéria publicada originalmente no jornal O POVO em 26.01.2012
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